"Além dos sinais externos que denunciam - cabelos brancos, cabelo nenhum, rugas, barriga, essas indignidades - as gerações se reconhecem pelos jogadores de futebol que se têm na memória"

Luis Fernando Veríssimo

28 de set de 2011

Manipulação de massa

A imprensa é reflexo da sociedade, seja qual for sua área de abordagem, e o catalisador, para o bem e para o mal, dos acontecimentos da mesma. Publica-se o que vende, de acordo com a aceitação do público, infla-se ânimos exacerbados, coloca-se panos quentes quando lhe convém, e a sociedade embarca, por vezes de forma alienada, outras tantas por consciente comodismo.

Polêmicas a parte, leia-se Mário Fernandes, a imprensa esportiva do Brasil, como é natural, não fala em outra coisa que não a partida da seleção brasileira diante da Argentina nessa quarta-feira. Vive-se o clima de seleção brasileira, especula-se sobre escalações e principalmente sobre a situação do treinador em caso de vitória ou derrota, e a medida em que toca-se em determinados assuntos, a repercussão do que está por vir aumenta gradativamente.

Somos manipulados, para o bem e para o mal, de forma inconsciente, ou não. A palavra é forte, mas muitas vezes é essa a função do jornalista ou publicitário, persuadir o leitor a compartilhar de uma opinião ou o consumidor a adquirir um produto.

A partida dessa noite entre Brasil e Argentina é um exemplo claro da influência da imprensa no dia a dia das pessoas. Enquanto a imprensa brasileira infla os ânimos e acende o pavil pronta para implodir o emprego do treinador de seleção brasileira por uma partida que não vale absolutamente nada, nossos hermanos mal se lembram de que há um Brasil x Argentina essa noite, afinal, nem o principal diário esportivo do país se lembra (http://www.ole.com.ar/), e seja qual for o resultado do time B do Brasil contra o Z da Argentina, por lá a vida, e o trabalho, seguirão normalmente, sem atitudes equivocadas tomadas por conta de uma pressão sem sentido e imediatista.

Julgamentos à parte - até porque sou estudante de comunicação e me juntarei aos "manipuladores" - a sociedade reage exatamente como a imprensa deseja. Sinal de trabalho bem feito ou ingenuidade e credulidade social excessiva ?

22 de set de 2011

Salve o Corinthians !

 
Vivemos o tempo do profissionalismo. Cobra-se de todo e qualquer profissinal, do gari - com todo respeito a profissão tão digna quanto qualquer outra - ao diretor de uma grande empresa, uma postura irretocável e a cada dia que passa exige-se uma melhor prepração e qualificação para execer a função.

A explicação para tais exigências poderia ser o perfeccionismo de um sociedade que não para de evoluir, afinal, profissionalismo nos dias de hoje é sinal de eficiência que por sua vez remete a um constante progresso.

Contudo, quando o assunto é futebol, embora muito necessário, o conceito de profissionalismo esbarra em questões maiores e mais complexas.

A sabedoria popular já alerta que "mexer com a paixão de um torcedor é colocar a mão em vespeiro", mas o sentimento daqueles que são sim a parte mais importante do espetáculo não justifica todo e qualquer tipo de comportamento por parte dos mesmos.



A crise que se instalou no Corinthians após a rodada do fim de semana do Campeonato Brasileiro e a postura da pseudo-diretoria não é novidade nenhuma, ao menos não para os 30 milhões de corintianos e aos que acompanham futebol mais de perto.

O que - pelo incrível que pareça - ainda causa espanto - e espero que continue causando, pois o dia que a perturbação com esse tipo de conduta deixar de existir o futebol brasileiro entrará por um caminho sem volta - é o fato de o mesmo presidente que foi a público afirmar que o seu clube seria o mais bem estruturado física e financeiramente, e que portanto se transformaria em um exemplo de gestão profissional, do mundo, permitir que membros de uma facção - facção porque não são torcedores e sim criminosos - entrem na concentração para ameaçar de forma velada jogadores e comissão técnica em caso de nova derrota.

O mesmo presidente que banca o treinador até o fim do ano, permite que o mesmo seja coagido, em seu local de trabalho, a ponto de temer pela segurança de sua família.

Esse é o clube que se autodenomina o futuro melhor clube - ser o melhor clube abrange muito mais do que simples resultados dentro de campo - do mundo.

O Corinthians nasceu para representar o povo - mas não é de propriedade pública, precisa e deve ter comando e hierarquia - em um esporte na época, acredite, elitista. Futebol era como, em termos de comparação aos tempos atuais, ir ao jóquei clube. Acontece que fazem 100 anos. O futebol, assim como a sociedade mudou, o profissionalismo faz-se necessário e não pode ao menor sinal de pressão ser deixado de lado.

Salve o Corinthians [!] do boçais que se dizem torcedores e dos fracos que se dizem diretores.

19 de set de 2011

Jogos que eu vi - Premier / Calcio / Brasileirão

Blackburn 4x3 Arsenal

Definitivamente o Arsenal pagará o preço pela falta de planejamento em termos de elenco para a temporada 2011/12. Se desfez dos seus principais jogadores (Cesc Fàbregas e Samir Nasri) e além de não contratar a substitutos a altura, só foi as compras no último dia da janela de tranferências após ser humilhado pelo Manchester United na Premier League.

Marfinense Gervinho marcou o primeiro gol da partida
No último sábado os Gunners foram ao Ewood Park visitar o Blackburn e com um gol logo aos 8 minutos davam mostras de que colocariam fim a má fase. Com o toque de bola que lhe é característico, o time londrino, que chegou a ser chamado de "Barcelona da Inglaterra" na temporada passada, dominou as ações no primeiro tempo, mesmo jogando fora de casa, porém, foi para o intervalo com a vantagem mínima, mais uma vez por erros individuais de um sistema defensivo muito aquém do que se espera de um clube como o Arsenal.

Na segunda etapa o Blackburn parece ter se lembrado que jogava em seus domínios, passou a agredir mais os visitantes, que diante de uma marcação adiantada, passaram a encontrar muita dificuldade na saída de bola. A situação piorou para os Gunners quando o lateral direito Sagna, principal arma ofensiva do Arsenal jogando pela direita ao lado do marfinense Gervinho, saiu de campo machucado logo aos 4 minutos.

Arsene Wenger mandou à campo o zagueiro Djourou improvisado pelo lado direito, que não marcou tampouco apoiou o ataque. Estava dado o "caminho das pedras" para que os donos da casa tomassem conta do jogo.

O suíço Olsson, jogando nas costas de Djourou, infernizou a defesa dos Gunners que de tão perdida jogou duas vezes contra o próprio patrimônio (Song e Koscielny).


No fim da partida o marroquino Chamakh ainda descontou para o Arsenal, mas já era tarde. Nova derrota e novamente levando muitos gols.

Conceitos, ainda que outrora tenham sido eficazes e vencedores como no fantástico time de 2004/05, que embora jovem contava com jogadores experientes, campeão invicto da Premier League, podem e devem ser revistos. A política do Arsenal de apostar em jovens talentos há tempos deixou de funcionar da maneira esperada.

Arsene Wenger treinador do Arsenal desde 1996

O futebol é um esporte muito dinâmico, e a menos que Arsene Wenger assuma a mesma postura, veremos uma era de quase vinte anos chegar ao fim no Emirates Stadium.

Inter de Milão 0x0 Roma

Duas das mais tradicionais camisas do futebol europeu, jogadores do nível de Sneijder, Forlán, Lúcio, Totti, De Rossi... em campo. Garantia de grande jogo, certo ? Há controvérsias !

Passei o dia tentando me lembrar de uma partida tão ruim técnicamente que tivesse visto nos últimos tempos... #continuopensando

 
O time de Milão, que, inexplicavelmente, "nunca mais foi o mesmo" depois da saída de Mourinho. - aspas porque o elenco é praticamente o mesmo que o português levou à tríplice coroa em 2009/10. Parecia um bando de estranhos jogando uma pelada. Um abismo entre meio campo e ataque, jogadores fora de posição correndo atrás da bola sem marcação ou produção ofensiva.

Do outro lado, o treinador Luis Henrique, que veio das categorias de base do Barcelona no intuito de implantar a mesma filosofia de futebol do clube catalão no clube da capital italiana, mostrou que seu trabalho demanda tempo, muito tempo.

A "boa notícia" é que entre os clubes que brigam pelo título do campeonato brasileiro, qualquer um teria condições de faturar a Calcio 2011/12.

Avaí 1x1 Palmeiras

 
A criatividade passou longe da Ressacada. Em uma partida da qual já não se esperava muito, as expulsões prejudicaram ainda mais o espetáculo, se é que ele era possível.

Um gol logo no início jogando em casa, tudo que um time que briga para fugir do rebaixamento precisa quando recebe um time extremamente competitivo e difícil de ser batido como o Palmeiras de Luiz Felipe Scolari. Se o cenário já era favorável com a vantagem no marcador, acrescenta-se à isso vantagem numérica de jogadores em campo, que chegou a ser de dois, e a vitória é certa e irrevogável. Seria, se o esporte em questão não fosse futebol.


O Palmeiras é o retrato de seu treinador. Não me lembro na história recente do futebol brasileiro um exemplo de clube e treinador com relacionamento e características tão intrínsecas. Um time consciente de suas limitações, mas que não se entrega e extremamente disciplinado táticamente, disciplina e consciência que hoje são as principais responsáveis pelo ponto conquistado em Florianópolis.

Aos torcedores do Palmeiras fica o realismo de que o clube briga por, no máximo, Libertadores, aos avaianos fica a preocupação de um time que não consegue vencer dentro de casa com dois jogadores a mais.

Corinthians 1x3 Santos


Acabou a "sorte". O Corinthians tropeçou, e seus concorrentes agradecem. E como não poderia deixar de ser, a derrota corintiana diante do Santos já assumiu proporções titânicas, e a torcida que comanda o clube, com aval da diretoria, já faz suas ameças veladas em forma de exigências.

A partida foi igual, pelo período de tempo que os times se portaram como iguais, a partir do momento em que o Santos passou a impor o que falta ao Corinthians, o talento de um craque, a história fez-se da maneira que se esperava.


Proferir elogios à Neymar é chover no molhado, todos já conhecem seu talento e sua capacidade dentro de campo, o que todos não sabiam é se o Santos de Neymar ainda seria capaz de buscar o título brasileiro. Depois de derrubar o líder por 3x1 fora de casa com um jogador a menos, você duvida ? Lembre-se que o Santos tem duas partidas a menos.

Para o time da Vila o jogo acabou com o apito do juiz, para o Corinthians esse jogo continua, mas o adversário agora é outro, os pseudo-torcedores donos da verdade que mandam e desmandam em uma instituição onde o poder é definitivamente descentralizado.

16 de set de 2011

Geração perdida

Está claro e manifesto: O medo de perder, o emprego, tirou a vontade de vencer, da forma como deveria, com um foco específico, a evolução de um trabalho a longo prazo, visando o que realmente interessa, 2014.

Não vou entrar nos méritos e deméritos da partida de ontem por dois motivos: Primeiro porque só pude acompanhar uma parte do jogo, para minha sorte a parte que valeu a pena graças a Leandro Damião (melhor centroavante brasileiro em atividade), segundo porque ao meu ver as questões que envolvem a seleção brasileira vão muito além do resultado de ontem e da péssima, de novo, escalação e "atuação" de Mano Menezes.



Ontem ficou claro não apenas na partida, mas principalmente na entrevista coletiva do treinador que sempre mostrou tranquilidade e convicção na conduta de seu trabalho, que perdemos o rumo. A pressão pela falta de resultados começa a, equivocadamente, ser maior e mais importante do que a renovação e formação de uma seleção que possa ser campeã mundial em 2014.

Antes de fazer o papel de advogado do diabo, deixo claro que há tempos não concordo com as práticas de Mano Menezes, que em nada se parecem com a teoria. Porém, embora não tenhamos visto nenhuma evolução no processo de formação de um time em pouco mais de um ano, há de se considerar que o treinador da seleção brasileira tem em mãos talvez o processo de renovação mais difícil da história da seleção canarinho. Explico.

Há alguns posts atrás citei o "buraco de gerações" como o motivo central das dificuldades que estamos enfrentando, e é exatamente ele, somado a enorme pressão de disputar uma Copa do Mundo pela seleção brasileira em casa, que ainda me fazem dar créditos à Mano Menezes.


O "buraco" trata-se da geração perdida que tivemos entre 2002 e 2010, leia-se a seleção que disputou o pré-olímpico de 2003 que ficou apenas na promessa. Robinho, Diego, Dagoberto. Daniel Carvalho, Edu Dracena, Fábio Rochemback, Nenê... Quantos deles viraram realidade na seleção brasileira ?

Pois bem, o "buraco" obrigou uma geração que já havia feito sua parte em 2002 (Ronaldo, Roberto Carlos, Cafu, Gilberto Silva) a assumir a responsabilidade, ainda que com bons "reforços" (Kaká, Zé Roberto, Adriano) de mais uma Copa do Mundo (2006) e obriga agora uma geração a assumir precocemente o papel de protagonistas do time que veste a camisa mais importante do futebol mundial.

Muito se fala de que o jogador precisa de "bagagem" para assumir a titularidade da seleção brasileira. Embora não concorde muito, a tese é válida se olharmos para o histórico recente. Ronaldo estava, antes de se transformar em fenômeno, aos seus 18(?) anos no banco da seleção campeã mundial em 1994. O mesmo para Kaká que antes de se transformar no melhor do mundo, esteve no banco da seleção penta-campeã mundial no Japão, e Muller, que esteve em 1990 antes de se sagrar campeão do mundo em 1994.

 
Se considerarmos tal histórico, podemos afirmar inclusive que Mano Menezes paga parte da conta dos erros cometidos por Dunga, que deixou de levar nossas, na época promessas, hoje principais esperanças Neymar e P.H Ganso para a Copa do ano passado.

Claro que essa tese do buraco de gerações, que é uma realidade, não isenta Mano de todas as responsabilidades, seu discurso há muito não condiz com o que é posto em prática, mas é bom que se leve em consideração na hora das cobranças exageradas, porque o imediatismo por parte da opinião pública só contribui para a falta de definição de prioridades por parte do comando técnico da seleção brasileira.

Estamos perdendo o rumo em meio a tempestade que se cria com os resultados de momento, e isso pode ser fatal para nossas pretensões no que diz respeito a Copa de 2014.

14 de set de 2011

Contrariando as leis da física

"Loucura é tentar repetidas vezes a mesma coisa e esperar resultados diferentes"

Albert Einstein

O Corinthians tenta, tenta, tenta... mas o resultado é sempre o mesmo: Permanece inerte na "incômoda liderança". Mas um fenômeno que vai além da "falta de interesse" alheio parece favorecer o atual líder do campeonato.

Baseemo-nos na física então...

Terceira lei de Newton, ou Princípio da Ação e Reação: A toda ação há sempre uma reação oposta e de igual intensidade.

Agora aplique a fórmula nas partidas do campeonato brasileiro.

O Corinthians perde, os adversários diretos entram em ação, porém, a reação oposta dos obstáculos entre eles e a liderança é de maior e não de igual intensidade.

Resultado final da equação: O futebol contraria as leis da física.

Ora, qual o espanto ? Por que o esporte mais popular de um país onde a constituição é composta de centenas de leis que se anulam para favorecer uma minoria se prostraria a leis tão "insignificantes" como as da Física ?

Espanto mesmo será quando CBF, Senado Federal e Câmara dos Deputados, contrariarem a lei da probabilidade, e fizerem algo decente, só para variar.

2 de set de 2011

"Para que serve o futebol"

A frase que intitula o post não é minha - por essa razão as aspas - e sim de um gênio da literatura brasileira: Luis Fernando Verissimo, e assim como em sua crônica, serve de síntese perfeita para a mensagem que segue.

A crônica de Luis Fernando Verissimo conta a história do MH (Marciano Hipotético) que vem ao Brasil e fica estarrecido ao descobrir que por aqui, o futebol é um mau negócio.


"Mas como, perguntou, agitando as antenas. Uma população deste tamanho, todo mundo louco por ele, nenhum outro esporte de massa disputando mercado com ele, um clima que permite sua prática o ano inteiro, e ele só dá lucro para a CBF ? Não consegue sustentar nem uma indústria de revistas especializadas como na Espanha ou Argentina ? Os clubes estão falidos, e os seus melhores jogadores são exportados ?"


Diante da indignação de MH, Luis Fernando prefere mudar de assunto, comenta então sobre os problemas rurais e a falta de terras para assentar agricultores.

Sem acreditar no que acabara de escutar, MH sobe em sua nave e cortando as nuvens mais rápido do que os olhos humanos podem acompanhar, desaparece sem deixar rastros.

Tempos depois volta trazendo, se não uma solução, uma tese: "Para ele o problema básico do Brasil é o mesmo da agricultura quando uma safra excede a capacidade de escoamento. No nosso caso, uma super abundância de talento não encontra uma estrutura para absorvê-la. Num país enorme, o talento produzido (seja qual for a área, esportiva, artes cênicas, etc.) não encontra colocação e simplesmente transborda."

Em suma: "Ele (futebol) existe para representar o grande desperdício nacional, o grande paradoxo de um país que não se aproveita. A função do futebol, no Brasil, é ser metáfora."

Confesso que sempre considerei essa tese sensacional, e embora a realidade esteja mudando, com o movimento por parte dos clubes para repatriamento e a manutenção de grandes craques, ainda é cedo para derrubarmos a mesma.

Porém, é apenas uma tese sobre para o que realmente serve o futebol, tomá-a por verdade absoluta quem assim desejar, cria-se uma nova tese quem com ela não concordar.

Não vou me atrever a dizer que criei uma tese sobre a função do futebol na sociedade, mas em uma semana em que levamos mais um "soco no estômago" de quem deveríamos receber todo tipo de deferência e estima, o governo, diria que o futebol nos serve como válvula de escape. Uma paixão infantil, a quem nos dedicamos com afinco e que por 90 minutos é capaz de nos fazer esquecer todos os desprazeres da vida.

90 minutos onde tudo que importa é a bola que entrou, ou não, a defesa salvadora, ou não, no último minuto, a demonstração de raça e amor por parte de milhares de pessoas que nem se conhecem, mas tem em comum uma parte muito importante de suas vidas.


Essa é a realidade em que vivemos: Enquanto alguns distorcem e elitizam suas funções, em detrimento da maioria, outros, no caso específico futebol, as multiplicam, por vezes nos mostrando a realidade, como na tese do MH, e outras tantas vezes, para o nosso bem, nos fazendo esquecê-la.