"Além dos sinais externos que denunciam - cabelos brancos, cabelo nenhum, rugas, barriga, essas indignidades - as gerações se reconhecem pelos jogadores de futebol que se têm na memória"

Luis Fernando Veríssimo

9 de out de 2011

Samurai chileno

Reza a lenda que nos arredores de Tóquio vivia um ancião que, ao ser atingido pela inevitável ação do tempo, passou a se dedicar a ensinar o zen para os jovens postulantes a samurai. Dizia-se ainda que o velho samurai, apesar da idade, era capaz de vencer qualquer adversário.

Certa feita, apareceu por ali um jovem, conhecido por suas habilidades com a espada e completa falta de escrúpulos; usava o artifício da provocação para atrair seus oponentes e então aplicar o bote fulminante com uma astúcia, incomum, porém de certa maneira admirável, para sua pouca idade.

 
Na intenção de aumentar sua fama, o jovem resolveu desafiar o velho ancião para um duelo; a contra gosto de todos os seus discípulos, o desafio foi aceito pelo velho samurai.

Na praça do pequeno vilarejo, diante dos olhares de todos, o jovem passou a impor, ou ao menos tentar, sua forma pouco ortodoxa de induzir o adversário ao erro para alcançar a vitória. Passou a agredir de todas as maneiras possíveis, que não físicas, o velho ancião, que de forma impassível e serena, continuou em silêncio.

Depois de horas gritando todos os insultos possíveis, o impetuoso jovem retirou-se exausto e humilhado.

Ao ser indagado sobre o motivo de ter aceito tantas agressões calado, o velho ancião deu a seguinte explicação:
- Se alguém chega até você com um presente mas você não o aceita, quem fica com ele ?
- Quem tentou entregá-lo. Respondeu o discípulo.
- Pois bem, o mesmo serve para as agressões e insultos.

Ontem, assistindo a partida entre Argentina e Chile [4x1], por algum motivo - bizarro - lembrei desta fábula. Há algum tempo a seleção chilena me lembra o jovem audacioso que usa todas as suas artimanhas para se impor e agredir - quando digo "agredir" não me refiro a físico e sim a um futebol ofensivo - o adversário; induzí-lo a "aceitar a provocação" e entrar na sua correria, o que eventualmente abriria os espaços na defesa adversária, espaços que diante de um ataque que conta com Suazo, Alexis Sanches [desfalque na partida de ontem] e Valdívia, podem custar muito caro.

Assim como na fábula, o "jovem" chileno tem encontrado, se não anciãos, adversários serenos e conscientes que mesmo jogando em casa não se afobam diante de uma audaciosa seleção que não tem medo de encarar de igual para igual quem quer que seja e que tem pago o preço por sua tolice coragem.

Porém, o que difere o jovem da fábula do "jovem" chileno é o fato de que os adversários do "jovem" chileno não têm esperado que ele se retire com o gosto amargo da derrota, mas têm imposto tais derrotas com a arma mais usada pelo jovem da fábula: o contra golpe fulminante.

Ousadia e ambição são características louváveis, se com elas estiverem certa dose de
sabedoria e paciência. Há sentimentos e características que não nos conduzem ao caminho desejado se com elas não estiverem inerentes seus valores antônimos.

OBS: Sobre a partida da seleção brasileira me abstenho de qualquer comentário, afinal, é impossível comentar o nada. Vou apenas observar, como diria Tim Vickery: "o comportamento maníaco depressivo" da torcida e de parte da imprensa que não sabe diferenciar uma análise de momento de uma análise mais ampla. O lixo e o luxo se alternam no dia a dia das manchetes.

3 comentários:

Anônimo disse...

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Kaique Pedaes disse...

Amigo, tira o net-esportes dos teus parceiros, o blog foi roubado.

Matheus disse...

Gostei muito da postagem e da forma como a partida foi abordada.

Gostaria também de propor uma parceria com seu blog e para tal já adicionei um banner (feito por razões estéticas na página de parceiros) seu.

Também sou seguidor do site agora.

Um abraço.

http://pelotaonline.blogspot.com/