"Além dos sinais externos que denunciam - cabelos brancos, cabelo nenhum, rugas, barriga, essas indignidades - as gerações se reconhecem pelos jogadores de futebol que se têm na memória"

Luis Fernando Veríssimo

26 de abr de 2012

Prazo de validade

A partida foi espetacular - com requintes de crueldade para torcedores cardíacos. Não vou entrar nos méritos e deméritos das equipes pelo simples motivo de que o resultado esteve em aberto o tempo todo, não há disparidade entre as equipes como havia no outro confronto. Bayern de Munique e Real Madrid são fantásticos ofensivamente e deixam a desejar no setor defensivo. Qualquer um que passasse seria merecido.


O assunto do post é outro, o comentário que mais ouvi no dia de hoje, no espaço de tempo pós eliminação do Barcelona e pré eliminação do Real Madrid, sobre Lionel Messi: "Perdeu um pênalti e seu time acabou eliminado. Não pode ser considerado o melhor do mundo novamente. Agora é Cristiano Ronaldo"

Eis que por um capricho que só o futebol é capaz de promover, o craque português cometeu um erro determinante para a eliminação do Real Madrid diante do Bayern de Munique, curiosamente, o mesmo erro do argentino diante do Chelsea: desperdiçou uma penalidade.


Agora a pergunta que fica é: Quem deve ser o melhor do mundo?

A memória curta e a impulsividade de momento do povo na hora de julgar e analisar futebol chega a ser patética. Um jogo, um resultado e o status de melhor do mundo é transferido. Então, sigamos essa linha de raciocínio e entreguemos a bola de ouro desse ano para Neymar, o próximo da lista. Ah sim, claro, a menos que o Santos seja eliminado da Libertadores com uma falha do camisa 11. 

Messi continua o melhor do mundo. Barcelona continua um time fantástico. Cristiano Ronaldo continua craque. Real Madrid continua sendo Real Madrid. E o resto é só um monte de asneira de pseudo-especialistas de futebol.

Em time que está ganhando...

Messi e Pep lamentam a derrota que pode decretar o fim da era Guardiola no comando do time catalão

Pep Guardiola é o melhor treinador do mundo, treina o melhor time da atualidade e um dos maiores da história, mas errou, e sua falha foi determinante para o resultado da partida.

"Em time que está ganhando não se mexe" certo? O erro de Pep foi esquecer que o seu time, mesmo quando perde, "ganha", e que dois resultados negativos não eram motivo - de forma nenhuma - para mudar o esquema tático de seu time para a partida mais importante da temporada.

O Barcelona entrou em campo em um 3-4-3  - absolutamente sem sentido - com os homens de meio campo em losango, e curiosamente perdeu o controle exatamente desse setor, onde seu futebol faz toda a diferença.

Como se não bastasse a mudança, Guardiola ainda distribuiu seus jogadores de maneira errada em campo, deixando Messi na ponta de cima do losango, a frente dos volantes e infiltrado no sistema defensivo adversário, facilitando a marcação e a diminuição dos espaços por parte dos marcadores, e não atrás como o prefere o craque, jogando com mais liberdade. Resultado: Messi não jogou e o Barcelona parou.

Messi posicionado a frente dos volantes do Barcelona e muito próximo da marcação adversária.
Mas a qualidade do time catalão é tão fantástica que ainda assim o placar necessário foi construido. 2x0 e a vaga na final estava garantida, não fosse a soberba catalã em avançar de maneira desnecessária um time que vencia por 2x0, em casa, com um jogador a mais.

E antes que me cornetem dizendo que estou tirando os méritos do Chelsea, faço questão de destacar todas as qualidades do time inglês.


O comentário que mais me chamou a atenção nesse dia pós partida foi: "Derrota do futebol". Uma besteira sem tamanho. Futebol é muito mais do que "jogo bonito". Futebol não é monotemático, tem muitas faces. Futebol é garra, é entrega, é determinação, é comprometimento. Em muitos momentos esses aspectos superam qualquer qualidade técnica, e nesses quesitos, os jogadores do Chelsea se agigantaram em campo. Drogba e Lampard, símbolos desse time se entregaram de maneira admirável. O Chelsea "suou sangue" e conseguiu uma classificação histórica.

Sem mencionar que: se isso aqui não é futebol...


...alguém por favor me explique do que se trata.

O Chelsea tem problemas para a disputa da final, meio time que eliminou o Barcelona está suspenso. Ramires, Ivanovic, Raul Meireles e Terry estão fora do jogo decisivo. Mas depois de eliminar o Barcelona com a autoridade de quem impôs sua proposta de jogo, você duvida que a taça do campeonato de clubes mais importante do mundo possa parar em Stamford Bridge esse ano?

24 de abr de 2012

Não faz sentido, faz?

A linha que divide a glória do fracasso no futebol é tênue, e muito inconstante. Um lance, uma bola, um sopro no apito e a história que caminhava para um rumo certo e definido mostra um final alternativo que invariavelmente trará lamentos e vibrações contrárias.

Tão tênue quanto essa linha, é a establidade de um clube de futebol. A paz construída em meses demorona em noventa minutos - essa por sinal é a utilidade básica do campeonato estadual no futebol atual.

O mesmo Corinthians e Ponte Preta de ontem, em um estadual muito diferente do de hoje.

Não vou entrar nos méritos dos estaduais pela enésima vez - quem acompanha o blog há mais tempo conhece a opinião de quem aqui escreve, ao demais, é suficiente saber que: a disputa estadual é tão retrógrada quanto a tabela do futebol brasileiro, queremos a evolução do futebol no país, do gerenciamento do esporte, mas nos recusamos a abandonar tradições que outrora deram certo, mas que já não mais funcionam.

Fato é que: aos clube grandes vencê-los não é mais que obrigação - ninguém valoriza o campeão estadual - perdê-los é sinônimo de crise - por que, se não tem valor?

Nesse momento temos milhões de brasileiros frustrados porque seus respectivos times perderam algo que segundo eles mesmos não tem valor, tendo como único consolo a desgraça alheia de seus rivais, que também viram suas possibilidades de vencer algo sem valor acabarem.[complicado?] Em suma o sentimento é o seguinte: não vale nada, mas se não é meu, não pode ser do meu adversário. 

Mas as "curiosidades" não param por aí: além do fato de você entrar em crise por algo que não vale nada, o fracasso na tentativa de conquista desse nada, aumenta a responsabilidade de conquistar o que realmente vale "tudo" - leia-se Libertadores para uns, Copa do Brasil para outros.

Podemos dizer então que a situação de Corinthians e Palmeiras é a seguinte: eles não perderam nada, e justamente por isso estão intimados a ganhar o "tudo".

Pensando bem, essa confusão "sentimental" que envolve o futebol faz todo o sentido, afinal, um esporte que está longe de ser uma ciência exata, não poderia ser composto por lógica e racionalidade.

19 de abr de 2012

O vilão da história

O Milan ja havia chego perto - não fosse a lambança do soprador de apito e esse post poderia ter sido escrito a algumas semanas atrás. Hoje o Chelsea, com um sistema de marcação absolutamente perfeito - 4-5-1 jogando em uma faixa de não mais do que 30 metros de campo em bloco - parou o um dos maiores times da história, comandado pelo melhor jogador do mundo.

Drogba marca o gol da vitória do Blues

A receita tem sido dada há algum tempo - diminuir o espaço de raciocínio de quem é capaz de desequilibrar em segundos -  a questão era alguém conseguir executá-la com eficiência.

É inevitável, tendência do ser humano: Na derrota começarão a surgir os "defeitos" em quem antes era "perfeito" ou ao menos flertava com a perfeição de maneira muito próxima. Dirão que faltou velocidade ao toque de bola catalão, que faltou verticalizar o jogo em determinados momentos, que sobrou preciosismo, e blá blá blá. A velha mania de não reconhecer os méritos alheios.

O Chelsea venceu ponto Venceu e nos trouxe de volta a realidade, tirou os amantes de futebol da "ilha da fantasia" catalã e provou que é possível. Venceu para o regozijo dos amantes dos esquemas táticos. A verdade é que Di Matteo armou um paredão em que Pep Guardiola foi incapaz de penetrar, e como um predador que espera por horas o momento certo de dar o bote, derrubou o "inderrubável" time espanhol.


É bem verdade que foram apenas os primeiros 90 minutos. Agora o Camp Nou e sua fanática torcida esperam o time inglês para o encontro decisivo, mas o fato é que o time inglês está bem perto de vencer a concorrência pelo papel de "vilão do futebol", o time responsável por quebrar o encanto e nos deixar órfãos de um time histórico. Com o Barcelona é assim, até na derrota, não deixa de ser o "mocinho" da história.

15 de abr de 2012

Evolução[?]

A evolução do futebol é clara e evidente, em todos os segmentos que envolve o esporte: A filosofia de trabalho e métodos de praticá-lo; o profissionalismo na gestão de clubes e entidades ligadas ao esporte; publicidade e propaganda movimentando a economia mundial; tecnologia dos acessórios para potencializar o rendimento dos atletas; apenas para citar alguns pontos.


Entretanto a pergunta que fica é: Estamos evoluindo da maneira correta? Será que a medicina esportiva tem acompanhado o mesmo ritmo de evolução dos demais segmentos? Ou o corpo humano chegou ao limite da exigência de desempenho e começa a dar sinais de colapso? Qual o motivo de tantas mortes dentro de campo?

Piermario Morosini sendo socorrido invão

Mais um atleta perdeu a vida dentro de campo nesse fim de semana, o meia italiano Piermario Morosini do Livorno, time da segunda divisão do campeonato italiano, teve uma parada cardíaca e uma morte instantânea enquanto praticava um esporte que há alguns anos tinha as fraturas ósseas como "acontimentos mais graves" referente à saúde dos atletas.

O caso acontece apenas um mês depois do meia do Bolton, Fabrice Muamba, entrar em colapso durante a partida contra o Tottenham pela Copa da Inglaterra. O Coração do meia do time inglês ficou sem bater durante 78 minutos e por um milagre, dois dias depois seu coração já batia sem a ajuda de aparelhos. Um caso de exceção.

Fabrice Muamba entra em colapso na partida contra o Tottenham

Recentemente o meia Renato, do Flamengo foi mais um a descobrir um problema cardíaco depois de anos no futebol - não sou médico, por isso não posso falar sobre o assunto com autoridade - mas em algum ponto da evolução do futebol deixamos um fio solto para que tantos casos comecem a surgir.

Descaso e ambição também tem sua parcela de culpa por mortes como essa. Descaso por parte de federações e confederações que tratam as principais ligas e campeonatos do mundo com todo carinho no que diz respeito a publicidade e glamour, mas esquecem do mínimo de cuidado com os personagens principais - que aliás são so responsáveis por grande parte de seus lucros - ao não realizarem sequer exames médicos e cardíacos em seus atletas.


A ambição desmedida em busca de um maior desempenho dentro de campo é inversamente proporcional aos cuidados voltados para quem é mais exigido nessa busca: O corpo humano.

O futebol se transforma a cada temporada, e a cada ano todos os segmentos que o acompanham precisam se adaptar a uma nova realidade. O passado deve ser conservado, a história é linda, mas o futebol de hoje não pode ser tratado como o de ontem, exatamente por isso que Pelé é Pelé e Messi é Messi. Não cabem comparações, pois não se compara atletas que praticam esportes absolutamente distintos.

13 de abr de 2012

Depois da tempestade...


A imensa maioria da população concorda que o problema do país está em quem detém o poder de mudar, ou não, as coisas. Dá-se poder a homens que pensam de maneira individual e esquecem o que realmente importa: O coletivo, o bem geral.

A questão no país é tão evidente que por vezes se estende e “faz escola” em outros segmentos da sociedade, e nem mesmo a maior paixão do brasileiro escapou a essas influências de pouco, ou nenhum, altruísmo.


Durante mais de 20 anos o futebol brasileiro foi comandado por um homem que se julgava dono do esporte e mais influente até mesmo do que o presidente da república. Ricardo Teixeira mandou, desmandou e apesar de o país ter conquistado diversos títulos mundiais em todas as categorias durante sua gestão e de ter trazido de volta ao país o evento esportivo mais importante do mundo, a Copa do Mundo de Futebol, ficou marcado mesmo pelos inúmeros escândalos de corrupção e manobras escusas que fizeram dele um homem com muitos adversários e poucos, mas influentes, aliados.

A saída de Teixeira do comando da CBF foi para muitos a extirpação de um cancêr do futebol, e o convite a Mário Jorge Lobo Zagallo para assumir a vice-presidência da CBF é a “bonança depois da tempestade”.


Não há ninguém melhor que o velho lobo para assumir a função. Zagallo ama o futebol e sobretudo a “amarelinha”, como gosta de chamar a camisa da seleção brasileira. Um homem que certamente colocará o bem do futebol nacional à frente de qualquer outro tipo de interesse. Zagallo é a dose de integridade, hombridade e honestidade que faltava ao comando do futebol brasileiro.

11 de abr de 2012

Erros "bem vindos"

Embora tenha ficado um tempo inativo - por absoluta falta de tempo - o De Olho no Lance continua de olhos bem atentos a tudo que acontece no mundo da bola, em especial a sempre sedutora Champions League.


A fase de quartas-de-final foi marcada pelo encontro de gigantes entre Milan e Barcelona, um duelo onde a proporção de grandiosidade do confronto foi a mesma da pequenez do fator decisivo, o árbitro. E a influência desse fator vai muito além do simples resultado da partida ou da eliminação deste ou daquele do campeonato de clubes mais importante do mundo - o que já não é pouco.

Os erros decisivos da arbitragem não mudam o curso apenas de jogos ou campeonatos específicos, alguns, transformam a história do futebol interrompendo ou dando continuidade a ciclos e hegemonias.


Antes de bancar o advogado do diabo, deixo claro que o a qualidade do Barcelona não está em questão, aliás, o time catalão está inquestionavelmente entre os maiores da história. Afirmação irrefutável e irrevogável. ponto final Mas o fato é que o Milan esteve, surpreendentemente - ou não - próximo de "encerrar uma era", e só não o fez por influência direta do apito.

O time italiano deu uma aula de marcação. Provou que é possível parar o melhor do mundo na bola, dobrando a marcação, diminuindo os espaços, sem violência. Além de ter demonstrado um poder de reação incrível ao sair atrás no placar e buscar o resultado em pleno Camp Nou.


Se conseguiria derrubar o Barcelona em seus domínios jamais saberemos, o que sabemos é que graças ao apito soprado de maneira errônea, Messi continua sendo Messi, Barcelona continua sendo Barcelona, e sua filosofia de trabalho continua sendo propagada como a melhor maneira de se praticar futebol na atualidade, então de certa forma o futebol agradece por esses erros, erros que nos mantém na ilha da fantasia do futebol arte catalão. Não que de fato não seja, mas já começa a dar mostras de que não é invencível como se pensa.