"Além dos sinais externos que denunciam - cabelos brancos, cabelo nenhum, rugas, barriga, essas indignidades - as gerações se reconhecem pelos jogadores de futebol que se têm na memória"

Luis Fernando Veríssimo

15 de jun de 2012

11x11

A questão da individualidade no futebol é muito peculiar. Bons valores individuais certamente agregam valor e qualidade a equipe, por vezes fazem a diferença, mas não se sustentam sem um bom "suporte". Muitas vezes o astro que todos exaltam estão naquele patamar fundamentalmente pela ajuda que recebem ou já receberam daqueles que "não aparecem".

O dia de ontem foi emblemático nesse aspecto. Durante a tarde vimos o duelo de duas seleções que estão entre as melhores do mundo. A diferença entre elas? O coletivo por trás dos talentos individuais.

Robben lamenta derrota que deixou a Holanda em situação complicada na Eurocopa 2012
A Alemanha dominou a partida porque seus craques estão inseridos em um equipe sólida, consciente, com "jogadores operários" extremamente eficientes e que se completam. A Holanda por outro lado conta com dois dos melhores atacantes do planeta, Robin Van Persie - desejo de todos os gigantes europeus na próxima janela de transferências - e Arjen Robben, astro do poderoso Bayern de Munique, com um dos melhores camisa 10 em atividade no futebol mundial, Wesley Sneijder, mas não tem a qualidade coletiva necessária para se formar um equipe campeã.

Algumas horas depois o mesmo aconteceu no futebol brasileiro. Na Vila Belmiro, o eficiente coletivo corintiano, que conta com bons valores individuais como Paulinho - um monstro no meio campo - Emerson "Sheik" e Leandro Castán, venceu o time que conta com o melhor jogador em atividade no continente, mas que a muito deixou de ter qualidade coletiva.

Jogadores do Corinthians comemoram o gol da vitória diante do Santos na Vila Belmiro
Neymar não fará a diferença sempre, o que é perfeitamente normal. Ganso é um pseudo-craque. Elano há muito deixou de praticar o futebol eficiente de tempos atrás. Arouca está sobrecarregado na saída de bola. Durval não pode ser zagueiro titular do Santos. O que significa que o coletivo do Santos que venceu a edição passada do torneio continental não existe mais.

Alemanha e Corinthians venceram baseados em sua força coletiva, porque futebol é exatamente isso, um jogo coletivo, não há um único responsável pela derrota ou pela vitória.

7 de jun de 2012

Descrença que engrandece

No meio esportivo temos o costume de desvalorizar a experiência. Atletas com idade avançada são sempre vistos com desconfiança - o que sinceramente acho irônico e sem sentido, porque os mesmo atletas desvalorizados por sua idade são endeusados no exato instante em que anunciam sua aposentadoria.

E isso é algo que pode ser notado em qualquer modalidade esportiva, o que muda é apenas a idade em questão. No futebol, passou dos 30, os clubes já pensam duas vezes antes de contratar o jogador, acima dos 35, é considerada contratação de altíssimo risco. O mesmo acontece na liga de basquete mais importante do mundo, a NBA. Grandes jogadores são obrigados a conviver com a desconfiança e os comentários pessimistas dos críticos. Obrigados a enfrentar grandes adversário dentro e fora das quadras.

Com ótima atuação de Kevin Garnett, Boston Celtics vira a série da semi-final da Conferência Leste da NBA contra o Miami Heat para 3x2

Na madrugada desta quarta-feira tivemos mais uma prova entre tantas já vistas de que a experiência pode fazer a diferença a favor de quem ao lado dela está em uma partida decisiva. Kevin Garnett, pivô do Boston Celtics, comandou a equipe em uma vitória surpreendente sobre o poderoso Miami Heat, do "Trio de Ouro" LeBron James - MVP da temporada - Dwayne Wade e Cris Bosh em plena American Airlines Arena.

Com a vitória de hoje, o Celtics virou a série melhor de sete para 3x2 e está a uma vitória da final da NBA, prestes a desbancar o milinário e favorito time da Flórida.

Kevin Garnett segue desequilibrando em um esporte altamente competitivo do alto dos seus 36 anos, calando críticos e desconfianças e provando que os conceitos de experiência e favoritismo no esporte precisam ser revistos, quiçá banidos. Que o digam merengues, catalães, bávaros, blues...

Os principais lances da partida:

6 de jun de 2012

Mas já mudaram as verdades?

A verdade de ontem não é a mesma de hoje. Não quero me gabar, mas eu cantei essa bola, não acredita? É simples, basta ler o post anterior. 90 minutos depois e lá se foi o "oba oba" com a invicta seleção brasileira. Bastou encontrar uma seleção um pouco mais organizada taticamente e com o mínimo - mínimo mesmo - de qualidade técnica e pronto, estamos de volta a realidade, feliz ou infelizmente.

Nem ranzinza nem corneta, apenas realista. Uma vitória sobre uma seleção que consegue ser mais bagunçada que a nossa - Dinamarca - e uma sobre uma seleção que não conseguiu se renovar com uma geração sequer razoável - EUA - não podem mascarar todos os problemas tampouco satisfazer a seleção brasileira de futebol.

Neymar tem atuação apagada na derrota brasileira
O time de Mano Menezes não tem padrão de jogo, não tem esquema definido e o principal: Os jogadores não conhecem suas funções em campo. E começo a achar que nem mesmo o treinador as conhece. O diagnóstico é simples: Pergunte para qualquer brasileiro quem arma, quem defende, quem ataca, quem recua, quem cobre quem, quem joga de que lado, quem substitue quem, quem bate falta, quem bate pênalti, até o mesmo quem é o jogador que mais reclama com o juiz no time do Barcelona e 11 em cada 10 boleiros terão as respostas na ponta da língua. Faça as mesmas perguntas sobre a seleção brasileira...

Nem todas as regras que regem a vida são válidas no futebol. Dentro de campo não se respeita o que não se conhece. Ninguém mais conhece, tampouco respeita, a seleção brasileira. A "fama" de Neymar está longe de amedrontar os adversários. Todos entram em campo e encaram de igual para igual - ao menos no sentido psicológico - o time que antes fazia os rivais tremerem ao menor sinal de sua presença. Se o México usou os contra-ataques e uma postura defensiva, é indiferente, cada um usa as armas de que dispõe. FATO é que outrora isso não era suficiente para vencer a camisa mais tradicional do futebol mundial, atualmente, qualquer Chicharito faz o Brasil "pagar mico" - sem menosprezo.

[OBS: "Salário baixo é suposta prova de que Ronaldinho quer jogo" - Salário em questão: 300 mil reais mensais. Realmente, ganhando essa "miséria" é um absurdo que o cobrem tanto, coitado.]

2 de jun de 2012

Verdades temporárias

O Brasil goleou o Tio Sam. Fato. Com o mesmo futebol envolvente que há dois anos enchia o torcedor brasileiro de esperança no trabalho de Mano Menezes no comando da seleção brasileira. Fato.

A equipe aprensentou um ótimo toque de bola e volume de jogo. Fato. Muita movimentação, bom jogo coletivo, atuações individuais que devem ser consideradas. Fato. Neymar assumiu o posto de principal jogador do time, buscou e armou como sempre. O garoto não foge da responsabilidade em campo. Fato. Oscar mostrou que se Ganso continuar visitando mais a sala de cirurgia do que as concentrações, perderá o posto de "maestro" do time - se é que já foi algum dia. Fato.

Na retaguarda Marcelo tomou conta da posição que passava de mãos em mãos - ou pés em pés, como preferirem - Fato. Thiago Silva é o melhor zagueiro do mundo. Fato. Rafael será o goleiro das Olimpíadas. Fato. Assim como Damião é o camisa 9 da seleção. Fato.

A sabedoria popular diz que contra fatos não há argumentos. Fato. Mas há a ação do tempo. Mano Menezes está invicto a 10 partidas, com oito vitórias consecutivas, e ainda assim há quem o conteste e afirme que não chegará a 2014 como treinador da seleção. O que acontecerá em caso de um tropeço ou mesmo vitória com mau futebol nos próximo jogos? 90 minutos são suficientes para todo esses fatos caírem por terra. As verdades no futebol são como cortina de fumaça, desaparecem ao menor sinal de mudança dos ventos.