"Além dos sinais externos que denunciam - cabelos brancos, cabelo nenhum, rugas, barriga, essas indignidades - as gerações se reconhecem pelos jogadores de futebol que se têm na memória"

Luis Fernando Veríssimo

28 de mai de 2013

Retrato de um país falido

Tudo que gira ao seu redor é exagerado, na proporção do seu absurdo talento para jogar futebol.

Elogios, críticas, cobranças exacerbadas, muitas vezes incompatíveis com seus 21 anos, e como não poderia deixar de ser, sua despedida. Está em todos os jornais do mundo. E como em todo assunto de grande repercussão, há milhões de "entendedores" donos da verdade.

Neymar é o que o futebol tem de melhor a oferecer e sua ida para a Europa era natural e inevitável já que o melhor do futebol está lá. Vila Belmiro; Campeonato Paulista; Campeonato Brasileiro; Libertadores da América; "Grande jogos" com 30 mil torcedores. Tudo isso se tornou pequeno. O Brasil se tornou pequeno. O futebol brasileiro não comporta jogadores do porte de Neymar. E o último ano do jogador em solo brasileiro é o retrato e a prova da falência do futebol nacional. Times não se sustentam por mais de duas temporadas. A baixa qualidade e competitividade não mantém o ímpeto dos grandes jogadores. Soma-se a isso cobranças exageradas e absurdas que aceleraram sua vontade de deixar o país. Filme repetido por aqui.

Os invejosos de plantão já começaram a elaborar suas teorias de fracassos: "Neymar e Messi não cabem no mesmo time", "Cai-cai na Europa não tem vez", "Carrega muito a bola para jogar no Barcelona", blá blá blá. Neymar acaba de se transferir para o melhor time do mundo. Vai jogar ao lado do melhor jogador do mundo. 90 mil pessoas vão lotar o maior estádio da Europa apenas para recebê-lo. Se ele não deu certo, tenha pena dos demais.

O sucesso de Neymar no futebol europeu é, de novo, inevitável. Mas mesmo depois de consumado, os cornetas de plantão sempre terão seus argumentos contrários. Novidade mesmo, será quando esses mesmos cornetas tirarem o alvo das costas de nossos craques e se preocuparem em cobrar respostas que realmente importam, como por exemplo, alguém explica, como dois times de uma país falido, Real Madrid e Barcelona, chegam ao Brasil, 7° economia do mundo, com um caminhão de dinheiro para disputar o melhor jogador que revelamos nas últimas décadas, enquanto assistimos sentados, do alto de nossa empáfia falida, sem ter condições de competir com eles? Como Real Madrid e Barcelona, times de um país menor que vários estados brasileiros, tem mais dinheiro e infraestrutura do que Flamengo e Corinthians que possuem milhões de torcedores a mais? Como um time de um país onde a taxa de desemprego está pra lá de muito alta tem média de público de 70, 80 mil pessoas por jogo enquanto nós colocamos, quando muito, 30 mil torcedores no estádio?

Tem alguma coisa muito errada no "país do futebol".

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