"Além dos sinais externos que denunciam - cabelos brancos, cabelo nenhum, rugas, barriga, essas indignidades - as gerações se reconhecem pelos jogadores de futebol que se têm na memória"

Luis Fernando Veríssimo

24 de jun de 2014

Desequilibrada

Perdoem-me as seleções que voltarão para casa no final dessa semana, mas a Copa do Mundo começa agora. O que vimos até aqui foi uma espécie de confraternização entre os povos, onde havia margem para erros, pequena, mas havia.

A partir de agora essa margem não existe, como diria um companheiro de profissão, com quem tive o prazer de trabalhar nos últimos anos, agora, chora menos, quem pode mais.

O esquema que consagrou a seleção brasileira campeã da Copa das Confederações no ano passado está falido. Os três primeiros jogos dessa Copa são a prova disso. Vencemos duas partidas e nos classificamos em primeiro lugar do grupo por duas razões: talento individual -contra a Croácia Neymar e Oscar desequilibraram, hoje, Neymar, e a entrada de Fernandinho, decidiram o jogo- e o fator casa -fosse a Copa em terras estrangeiras, estaríamos nós nos despedindo hoje. Na única partida em que um desses elementos não apareceu -a individualidade- não saímos do zero.

Engana-se quem pensa que nosso forte é o jogo coletivo, engana-se mais ainda quem acha que só temos um jogador capaz de desequilibrar.

O 4-3-3 armado por Felipão depende de um jogador fundamental: Paulinho. O Paulinho de um ano atrás, recém saído do Corinthians, era o pulmão da equipe, comandava as ações no meio de campo e organizava a retomada e a saída de bola. O Paulinho de hoje, reserva no Tottenham, é inoperante, omisso em campo. Não dá o primeiro combate nos meias adversários, não cobre os laterais, não volta para distribuir a bola ao ataque e não aparece como elemento surpresa na área adversária, justamente sua melhor qualidade, decisiva em muitos momentos no ano passado. E nesse caso, o baixo rendimento do camisa 8 tem causado um efeito ainda mais grave na equipe: O time perde o meio, e fica "rachado" em campo. A "má fase" de Fred é a maior prova disso.

Sem a ligação do meio, a bola não passa por Oscar, quando passa, vem sem qualidade e principalmente, sem opções de jogadas próximas a ele. Com os três atacantes, dois deles abertos pelo lado do campo, o jogadores ficam muito distantes uns dos outros, facilitando a marcação adversária. Na primeira partida, contra a Croácia, Oscar por diversas vezes caiu para os lados do campo para encostar em Neymar, Bernard e nos laterais que avançavam, foi quando saíram as melhores jogadas de ataque. Feito que não conseguiu repetir contra México e Camarões.

E não é só o ataque que sofre, sem o "serviço" de segundo cabeça de área de Paulinho, Luiz Gustavo fica sobrecarregado na marcação, precisa dar combate aos meias deixando a cobertura dos laterias a cargo de Thiago Silva e David Luiz, que a todo momento precisam sair da área para dar combate nas laterias do campo. O lado direito, que teoricamente seria o lado de marcação de Paulinho, é o mais prejudicado. Fator que também sacrifica Hulk, que precisa voltar até a linha de fundo para cobrir as costas de Daniel Alves.

De bico, Fernandinho marcou o quarto gol da seleção
Nos únicos 45 minutos em que nosso segundo volante funcionou, goleamos com facilidade, e foi justamente o segundo tempo da partida de hoje, com a entrada de Fernandinho no lugar de Paulinho. O jogador do Manchester City entrou para fazer exatamente a mesma função, dar o primeiro combate na intermediária e fazer a ligação com o ataque, e fez com qualidade, basta perceber os seguintes fatores: Depois da jogada de Fernandinho na entrada da área, David Luiz cruzou para o gol de Fred -ligação do meio com o ataque. Poucos minutos depois o próprio Fernandinho marcou o gol invadindo a área -elemento surpresa no ataque. Depois que ele entrou, Camarões não conseguiu armar uma única jogada ofensiva -primeiro combate na intermediária.

Há muitas maneiras de um jogador desequilibrar uma partida. Como eu disse, engana-se quem pensa que temos apenas um jogador capaz de fazê-lo. Mas engana-se mais ainda, quem acha que isso será o suficiente para os próximos jogos. Temos uma seleção desequilibrada, para bem, e para o mal.

Um comentário:

Rick disse...

Apesar de ser um fã incondicional do Paulinho (vai Corinthians), é nítido que ele não está correspondendo à toda expectativa que o Brasil tinha em torno dele.
Mais nítido ainda foi a evolução da equipe com a entrada do Fernandinho. Foi excepcional, desequilibrou.
Agora no mata-mata não temos tempo pra "ver o que vai dar", ou o Paulinho volta a ser o que era já no primeiro tempo contra o Chile, ou ainda nessa Copa vai perder a titularidade.

Abç Lu!